FONTE: DAROLT (2000)
NOTA: Para análise das percentagens médias recebidas pelo agricultor, associação/empresa e supermercados, foram avaliados cerca de 40 produtos orgânicos.
(1)Percentagem média recebida do valor final pago pelo consumidor.
(2)Valor percentual adicionado ao preço do produto recebido, para cobrir os custos de comercialização e retirar a margem de lucro.
Acompanhando cerca de 40 produtos orgânicos, comercializados basicamente via supermercado, observamos que do valor total (100%) deixado no caixa pelo consumidor, em média 30% são destinados ao agricultor, 33 % são para cobrir os custos dos distribuidores com classificação, embalagem, transporte e pessoal, e o restante (37%) corresponde à margem dos supermercados. Cabe destacar que os descartes dos supermercados são assumidos integralmente pelos distribuidores (associações e empresas), o que aumenta a margem dos supermercados e encarece demasiadamente o produto final para o consumidor.
O que chama atenção é que para comercializar via supermercado existe a necessidade de diferenciar os alimentos orgânicos dos convencionais e isso é feito por meio de uma embalagem especial. Em nossa pesquisa observamos que a embalagem custava R$ 0,07 e a mão-de-obra R$ 0,08, fator que encarecia o produto em R$ 0,15/ unidade embalada. Segundo nossa pesquisa (DAROLT, 2000) este preço deveria baixar para algo em torno de R$ 0,05/embalagem, porém isto depende do aumento de escala de produção.
(OBSV:A embalagem é de isopor coberta por um filme plástico, o que gera certa contradição quando se trata de um alimento produzido de forma "ecologicamente correta". Apesar de alguns estudos para o desenvolvimento de bandejas à base de amido de mandioca, ainda não há no mercado uma embalagem que substitua a bandeja de isopor em eficiência e preço)
A baixa escala de produção orgânica, implica maiores custos (mão-de-obra; insumos) por unidade de produto, o que se reflete no relativo aumento de preços. As estratégias devem ser direcionadas no sentido de atingir um ponto de equilíbrio e estabelecer uma escala de produção que possibilite reduzir os custos e aumentar o valor pago ao agricultor.
Além dos baixos volumes constatamos que a produção orgânica tem uma queda mais acentuada nos meses de inverno. Os problemas relacionados com a sazonalidade de produção nos meses de inverno, sobretudo no Sul e Sudeste do Brasil, podem causar diminuição de até 50% no faturamento das empresas e, conseqüente, aumento do preço final do produto.
Por ser um sistema novo, ainda há uma desorganização do sistema de produção (falta de planejamento) e do processo de comercialização. A descontinuidade de produção é reflexo da falta de um bom planejamento que possibilite facilitar a tomada de decisão no momento da comercialização. A dificuldade de seguir um planejamento de produção está relacionada a um conjunto de fatores como a falta de organização dos pequenos agricultores (responsáveis por 70% da produção orgânica nacional), a falta de treinamento na área gerencial, a falta de estrutura para lidar com o clima e o desconhecimento técnico-agronômico. Além disso, a logística e distribuição também são dificuldades a serem superadas. Portanto, estes pontos devem ser equacionados para se atingir um bom planejamento de produção, que permita diminuir o preço final do produto.
Outro ponto que encarece o produto final é a falta ou o pequeno número de pesquisas na área orgânica. Essa situação faz com que o agricultor tenha que fazer seus próprios experimentos, aumentando os riscos de perdas na produção.
Por último, os preços são maiores devido a custos extras com o processo de certificação e perdas econômicas durante o processo de conversão que são internalizados pelo produtor.
Para sintetizar a questão do preço, podemos dizer que o aumento relativo dos alimentos orgânicos está relacionado ao local de compra, tipo de produto e outros fatores relacionados ao processo de produção. O mais geral é a baixa escala de produção orgânica, o que implica maiores custos (mão-de-obra; insumos) por unidade de produto. Além disso, temos o problema do custo da embalagem para diferenciar produto orgânico do convencional, sobretudo em supermercados. Em seguida, há uma desorganização do sistema de produção (falta de planejamento) e do processo de comercialização. Depois, em função da falta de pesquisa, existem maiores riscos e a necessidade de experimentação do agricultor. Por último, os preços são maiores devido a custos adicionais com o processo de certificação e perdas econômicas durante o processo de conversão.
No estágio inicial em que se encontra a produção orgânica, o preço diferenciado muitas vezes compensa os rendimentos inferiores e o custo da mão-de-obra, contribuindo para que o produtor orgânico obtenha margens brutas por hectare e rendas idênticas aos produtores convencionais.
Entretanto, vale lembrar que o sistema só será sustentável se os preços forem competitivos com o sistema convencional, apesar de os consumidores ainda estarem dispostos a pagar até 30% a mais por um produto orgânico. Todavia, a tendência é que haja uma redução de preços para o futuro, o que seria importante para que a maioria da população tenha acesso a produtos "limpos", pois a eqüidade é uma característica fundamental quando pensamos na sustentabilidade.
É fundamental reforçar que a concorrência econômica entre o sistema orgânico e o convencional é injusta, pois a agricultura convencional exclui dos cálculos da formação de preço a contabilidade ambiental, exteriorizando os impactos ambientais, ao passo que a agricultura orgânica interioriza esses custos. Além disso, o produtor orgânico sofre uma pressão enorme de todo sistema agrícola que é guiado pela lógica convencional.
Finalmente, para que os preços dos alimentos orgânicos sejam competitivos, é fundamental que os diferentes "nós da rede" envolvidos com a produção orgânica, comecem a conversar. Com isso queremos dizer que os produtores, transformadores, processadores, distribuidores e consumidores, devem formar uma rede de interesses comuns no intuito de atender as necessidades de cada ator e desenvolver uma filosofia de agricultura orgânica coerente com os preceitos da sustentabilidade.
Referências
CARMO, M. S. do; MAGALHÃES, M.M. de. Agricultura sustentável: avaliação da eficiência técnica e econômica de atividades agropecuárias selecionadas no sistema não convencional de produção. Informações Econômicas, São Paulo: IEA, v. 29, n. 7, p. 7-98, jul. 1999.
DAROLT, M.R. As Dimensões da Sustentabilidade: Um estudo da agricultura orgânica na região metropolitana de Curitiba-PR. Curitiba, 2000. Tese de Doutorado em Meio Ambiente e Desenvolvimento, Universidade Federal do Paraná/ParisVII. 310 p.
LAMPKIN, N.H. & PADEL, S (ed.). The Economics of Organic Farming: an international perspective. Wallingford, UK: Cab International. 468 p. 1994.
SYLVANDER, B. Le marché des produits biologiques et la demande. INRA-UREQUA, Le Mans, 27 p. 1998. |