Engenheiro Agrônomo, Doutor em Meio Ambiente, Pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR), Ponta Grossa, C.Postal 129, CEP 84001-970, Fone/Fax: (42) 229-2829. E-mail: darolt@pr.gov.br
O trabalho de coleta de lixo na área rural ainda é insuficiente atingindo apenas 13,3% dos domicílios brasileiros (IBGE, 2000). Em 1991, do total de lixo produzido na zona rural, 31,6% eram enterrados ou queimados. Esse percentual subiu para 52,5%, em 2000. Já o lixo jogado em terrenos baldios caiu de 62,9% para 32,2%. A realidade mostra que o lixo rural tem coleta cara e difícil o que leva os agricultores a optarem por enterrá-lo ou queimá-lo.
Para uma análise mais ampla do lixo rural é importante conhecermos melhor o que se entende por lixo, os possíveis problemas causados pelos resíduos sólidos e líquidos no sistema, as possibilidades de utilização do lixo rural como fonte de energia, bem como algumas estratégias para minimizar o problema.
Definição
O termo popular “lixo” é o designativo daquilo que os técnicos, genericamente, denominam “resíduos sólidos”, e se antes eram entendidos como meros subprodutos do sistema produtivo, passam a ser encarados também como responsáveis por graves problemas de degradação ambiental. Os “resíduos sólidos” diferenciam-se do termo “lixo” porque, enquanto este último se compõe de objetos que não possuem qualquer tipo de valor ou utilidade, porções de materiais sem significação econômica, sobras de processamentos industriais ou domésticos a serem descartadas, enfim, qualquer coisa que se deseje jogar fora, o resíduo sólido possui valor econômico agregado por possibilitar o reaproveitamento no próprio processo produtivo.
Com respeito a esta definição, deve-se observar que o conceito de utilidade é relativo; objetos e materiais que são descartados por determinadas pessoas ou sistemas podem ser reaproveitados por outros. Do mesmo modo, alguns materiais podem ser incluídos novamente no sistema passando a ter significado econômico considerável.
Da definição apresentada, depreende-se que o lixo tem composição extremamente variada, dependendo basicamente da natureza de sua fonte produtora. Além de suas origens, o lixo também varia qualitativa e quantitativamente com as estações do ano, com as condições climáticas, com os hábitos e o padrão de vida da população (DAROLT et. al., 1996). Em suma, podemos dizer que os resíduos sólidos representam o fiel retrato da sociedade que os geram, e quando expostos nas vias públicas ou nas propriedades rurais, mostram o nível de competência das pessoas ou empresas responsáveis por sua administração. Cabe destacar que no caso das propriedades orgânicas uma disposição inadequada do lixo rural pode causar a perda do credenciamento junto à entidade certificadora.
Além de todos os tipos de lixo normal, que incluem a matéria orgânica do dia-a-dia, restos de alimentos, o material reciclável (vidros, latas, papel e plásticos), entre outros mais comuns, alguns tipos não despertam cuidados e podem causar sérios danos ao ambiente da propriedade, principalmente por conter elementos químicos na forma iônica que são absorvidos e acumulados pelo organismo. São elementos presentes em cosméticos e maquiagens, como alumínio; nas pilhas e baterias, que lança níquel e cádmio no ambiente; nas lâmpadas que possuem mercúrio, um metal pesado e tóxico que pode contaminar solos e a água; nas pastilhas e lonas de freios, que contém amianto e se acumula nos pulmões; nos adubos químicos, que são ricos em fósforo; nas embalagens de agrotóxicos e produtos veterinários, além de dejetos de suínos e aves.
Dejetos de animais:
problema de contaminação da água
A falta de tratamento adequada à grande quantidade de dejetos produzidos, sobretudo na suinocultura, é justamente um dos graves problemas que a intensificação da produção trouxe para o meio ambiente e à própria sociedade. Segundo a Empresa de Pesquisa e Extensão Rural de Santa Catarina (EPAGRI) a poluição do meio ambiente na região produtora de suínos é alta, pois enquanto para o esgoto doméstico, o DBO (Demanda Bioquímica de Oxigênio) é de cerca de 200 mg/litro, o DBO dos dejetos suínos oscila entre 30.000 e 52.000 mg/litro, ou seja, em torno de 260 vezes superior. Além disso, um suíno produz cerca de 2,5 mais dejetos do que um ser humano.
Um fato preocupante em nível nacional, para as próximas décadas, é a tendência de concentração de produção de carne suína em mercados de países em desenvolvimento como o Brasil. Duas das maiores empresas de suinocultura do mundo – as americanas Carroll’s Foods e a Smithfields Foods – já formam o principal grupo privado do setor. Com o projeto de uma supergranja de 50 mil matrizes implantado no Mato Grosso, ROPPA (1999) calcula que o impacto ambiental gerado pelos dejetos corresponda ao de uma população de 1,5 milhão de habitantes.
A energia que vem do lixo
O lixo rural também pode ser fonte de energia elétrica, tornando o produtor auto-suficiente. Com o biodigestor, o produtor rural pode transformar os dejetos de aves, de suínos e de bovinos em alternativa energética (gás metano), além de obter um excelente adubo orgânico (biofertilizante).
A matéria-prima mais utilizada no biodigestor, o esterco animal (suínos, bovinos, aves etc) pode ser reciclada dentro da propriedade. Outros tipos de compostos orgânicos também podem ser utilizados, tais como: restos de cultura, capins, lixos residenciais e de agroindústrias.
O uso do biodigestor permite dar novo destino ao esterco recolhido, que muitas vezes é lançado nos rios ou armazenado em locais não apropriados. Desta forma, além de produzir energia e biofertilizante, o produtor melhora o saneamento da propriedade, erradicando o mau cheiro, a proliferação de moscas e diminuindo a poluição dos recursos hídricos.
É interessante observar que o processo de digestão anaeróbica, que ocorre dentro do biodigestor, dura em média 35 a 40 dias e permite eliminar os patógenos (agentes transmissores de doenças) existentes no esterco, o que é extremamente importante para quem trabalha com a agricultura orgânica.
Vale lembrar que a construção do biodigestor é simples e tem mostrado bons resultados em substituição ao gás derivado do petróleo. A única desvantagem do processo é a necessidade de investimentos elevados para a distribuição do gás, pois a maioria das residências ainda não possui instalações internas para gás canalizado.
Outros tipos de rejeitos ou subprodutos agroindustriais, quer sejam sólidos, líquidos ou gasosos, podem ser utilizados como combustível. Até o momento, tem-se relato da utilização de subprodutos de laticínios, como o lodo anaeróbio, o soro, a gordura, e uma massa pastosa (quase idêntica ao iorgute). Além disso, a agroindústria sulcro-alcooleira do interior de São Paulo já vem queimando subproduto de bagaço de cana para suprir a demanda energética das indústrias.
Coleta seletiva, reciclagem e educação
ambiental: estratégias para minimizar
o problema
O melhor meio para o tratamento do lixo ainda é a coleta seletiva, por meio da separação, nas propriedades, em categorias como vidro, papel, metais e lixo orgânico. Ao material orgânico pode ser aplicado o processo de compostagem – decomposição da matéria – em que o produto final pode ser aproveitado como adubo orgânico. No caso de aterro sanitário na propriedade o solo deve ser totalmente compactado na base, o que o torna impermeável, evitando assim a penetração do chorume (termo usado para se referir ao líquido escuro e turvo proveniente do armazenamento e repouso do lixo) para os lençóis freáticos.
Em uma pesquisa que realizamos na região Metropolitana de Curitiba, comparando agricultores convencionais e orgânicos, observamos que os agricultores orgânicos fazem um melhor aproveitamento do lixo orgânico, seja em forma de composto, seja utilizando-o diretamente na plantação (DAROLT, 2000). Situação diferente ocorre com os resíduos sólidos. Segundo a maioria dos agricultores entrevistados, existe dificuldade para reciclagem do lixo comum (vidros, latas e plásticos), sobretudo para quem mora mais afastado da sede do município. O resultado da falta de coleta pública, leva os agricultores a queimarem, enterrarem ou jogarem este lixo em locais não apropriados.
Alguns municípios têm conseguido driblar esta situação com investimento em educação e infra-estrutura. Um bom exemplo de sucesso é um Programa instalado no município de Quatro Barras na Região Metropolitana de Curitiba (RMC). Abrigando em seu território parte da bacia hidrográfica de manancial de abastecimento público e parte da Floresta Atlântica, o município vem implementando desde 1997 a coleta seletiva que acontece em praticamente toda a área rural. Os agricultores são orientados, por meio de um trabalho de educação ambiental, para reciclar a matéria orgânica na sua propriedade; foram instalados postos de reciclagem para que seja feita a destinação e controle das embalagens de agrotóxicos e produtos veterinários, bem como trabalha-se no desenvolvimento de ações de apoio e incentivo à agricultura orgânica.
O produtor rural não pode esquecer que existe uma correlação direta entre qualidade do meio e qualidade de vida, portanto a medida que o meio ambiente se deteriora, a qualidade de vida é afetada. Desta forma, o gerenciamento da variável ambiental deve, invariavelmente, estar associado a uma estratégia e incremento da produtividade e qualidade, visando minimizar o desperdício de matérias primas, insumos e subprodutos, que além de se constituírem em perdas significativas para a lucratividade das propriedades, agravam concomitantemente os problemas relacionados à depuração de efluentes líquidos e disposição final de resíduos sólidos.
As novas estratégias para gestão de resíduos sólidos implicam uma mudança radical nos processos de coleta e disposição de resíduos. Segundo DEMAJOROVIC (1995), em contraposição aos antigos sistemas de tratamento desses resíduos, que tinham como prioridade a disposição destes, os atuais devem ter como prioridade a montagem de um sistema circular, onde a quantidade de resíduos a serem reaproveitados dentro do sistema produtivo seja cada vez maior e a quantidade a ser disposta menor, bem como, que os resíduos sejam produzidos em menor quantidade já nas fontes geradoras.
Para finalizar é preciso registrar que o problema do lixo rural ainda é pouco discutido e estudado sendo dedicado poucos recursos específicos para busca de estratégias que minimizem o problema.
Referências bibliográficas
DAROLT,M.R; DAVANSO, S.M.; LUZ, G.O.F.; MIRANDA, T.L.G.; PENTEADO, P.; PUCCI,A.; RAMINA, R.H.; TREVISAN, E. Percepções Sociológicas de Rotas do lixo reciclado em Curitiba - PR. In: JORNADAS CIENTÍFICAS SOBRE MEIO AMBIENTE, II. Resumos. Curitiba: UFPR-NIMAD/Grupo Montevideo/UNESCO, 1996.
DAROLT, M.R. As Dimensões da Sustentabilidade: Um estudo da agricultura orgânica na região metropolitana de Curitiba-PR. Curitiba, 2000. Tese de Doutorado em Meio Ambiente e Desenvolvimento, Universidade Federal do Paraná/ParisVII. 310 p. CD-ROM.
DEMAJOROVIC, J. Da política tradicional de tratamento do lixo à política de gestão de resíduos sólidos. As novas prioridades. Revista de administração de Empresas. São Paulo: EAESP, FGV. v.35 n.3 p.88-93, maio/jun. 1995.
IBGE. Censo Demográfico de 2000. Rio de Janeiro, 2000 (http://www.ibge.gov.br).
ROPPA, L. O vice-versa da criação de suínos. Revista Globo Rural. Ano 14, N. 165, julho, 1999. p. 46-50 |